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O que poderia ser apresentado como uma boa notícia – o fim da pandemia de Covid-19 – apresenta um conjunto de novos desafios, particularmente para o funcionamento do Serviço Nacional de Saúde: a gestão da Covid-19 endémica.

Parece cada vez mais claro que a imunidade de grupo para a Covid-19 é improvável. A imunidade de grupo ocorre quando uma grande parte de uma comunidade fica imune a uma doença, o que torna improvável a propagação da doença de pessoa para pessoa. Assim, toda a comunidade fica protegida e não apenas aqueles que estão imunes. A doença tende a desaparecer nessa comunidade. Neste sentido, dificilmente existirá imunidade de grupo à Covid-19.

Os dados mais recentes sugerem que a vacinação para a Covid-19 é eficaz na redução de doença grave e de hospitalização, mas não na propagação da doença. Acontece, tal como com outros vírus que causam doenças infecciosas respiratórias, que ao longo do tempo os vírus conseguem adaptar-se e contornar a resposta imunitária humana através de mutações. A vacinação aumenta a resistência contra o vírus, tornando a manifestação da doença menos grave, mas não confere uma proteção absoluta que impeça a propagação da doença. Nada disto é novo, basta lembrar a gripe por Influenza.

Uma doença endémica está sempre presente numa dada população, ainda que ocorram variações de prevalência, nunca desaparece. Os dados epidemiológicos sugerem que a Covid-19 será uma doença endémica.

Uma doença endémica não pode ser gerida da mesma forma que uma pandemia. Por exemplo, a testagem em massa deixa de fazer sentido. O número de testes positivos passa a ser um dado irrelevante quando a esmagadora maioria dos casos não apresenta sintomas. Mais do que gerir a epidemiologia da transmissão do vírus na comunidade importa focar a atenção e os recursos na gestão clínica da doença. A experiência, de mais de 30 anos, de um sistema de observação e vigilância como a rede de médicos sentinela que existe em Portugal será útil nesta nova realidade.

A comunicação de risco e envolvimento da população será um outro aspecto relevante a considerar. Num cenário de doença endémica toda a população terá contacto com o vírus, mais cedo ou mais tarde, não há como evitar isso. Ter a população, particularmente a mais vulnerável, vacinada é fundamental para minimizar o risco de doença grave e morte associada à Covid-19. A antecipação de cenários de evolução da doença em contexto endémico tem de prever planos adequados de comunicação de risco e envolvimento da população.

Espero que a transição da pandemia para endemia de Covid-19 seja gerida, em termos de comunicação de risco e envolvimento da população pelas autoridades de saúde competentes e não, mais uma vez, apenas pela comunicação social.