Como interpretar os resultados dos testes de diagnóstico para Covid-19

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Os testes de diagnóstico de RT-PCR (reverse transcription polymerase chain reaction) para Covid-19 têm uma elevada especificidade e uma moderada sensibilidade.

Significa isso que os falsos positivos são muito raros e os falsos negativos mais abundantes.

Na prática se uma pessoa tem um resultado positivo isso é um forte indicador de que deve ficar em isolamento imediatamente para evitar contágios a outras pessoas.

Contudo, se tem um resultado negativo poderá ter de voltar a ser testada frequentemente caso tenha estado em contacto com alguém infetado porque pode tratar-se de um falso negativo. Um dos aspetos que mais contribui para o resultado falso negativo é a qualidade da amostra recolhida para análise. O vírus pode estar lá e não ser colhido na amostra – falso negativo.

Pode saber mais consulte este artigo.

Covid-19 – As más notícias e as muito más notícias

Começo pelas más notícias – a situação é muito grave.

Em Saúde das Populações, perante uma pandemia segmentamos a cada momento a população em três grupos: 1 Infetados, 2 Imunes, 3 Suscetíveis de infeção. Com os dados disponíveis, parece-me razoável estimar estes valores (intencionalmente arredondados):

1 Infetados = 130 000
2 Imunes = 900 000 [recuperados 402 500 + vacinados 106 000 + recuperados não identificados 402 500]
3 Suscetíveis de infeção = 9 000 000

Para que haja algum efeito de imunidade de grupo temos de ter, pelo menos, 50% da população imune. Estamos muito longe de atingir esse valor e a Organização Mundial de Saúde já alertou que não se atingirá esse resultado a nível mundial em 2021.

Um exercício simples: se cerca de 1,5% dos doentes Covid-19 precisa de cuidados de saúde sem os quais morre, caso o SNS perca capacidade de resposta com (no melhor dos cenários) cerca de 9 milhões de pessoas em Portugal ainda suscetíveis de infeção o que acontecerá a 1,5% desses 9 milhões? São 135000 pessoas. Podemos até cortar esse valor para metade porque podemos admitir que se tivermos cerca de 50% da população imune (recuperados+vacinados) começamos a ter imunidade de grupo – 67500 mortes previsíveis.

Porque é que a Covid-19 tem prioridade face a outras doenças? Porque nenhuma tem o potencial de matar 67500 pessoas em tão pouco tempo.

Em Portugal temos hoje 638 internamentos em Unidades de Cuidados Intensivos (UCI) e um número de mortes por 100 mil habitantes bastante superior à média Europeia.

Esse número aumentará a cada dia que passa se as UCI ficarem sem capacidade de resposta. Todos os infetados que necessitem de cuidados intensivos morrerão por ausência de resposta.

Falemos agora das muito más notícias – não estamos a fazer tudo o que devia ser feito

Caminhamos para um desastre previsível e permanecemos incapazes de mudar de rumo.

A primeira vaga, e o confinamento de março/abril, foi caracterizada por sentimentos de medo e pela necessidade de se obter conhecimento sobre algo novo. Estamos agora numa etapa em que a população está cansada, zangada e indiferente à gravidade da situação.

O governo continua sem uma estratégia de comunicação de risco e envolvimento da população!

Se em fevereiro a hora era de união, e apelei a isso: “Portugal estará tão preparado quanto poderia estar para uma situação destas e este não será o momento para reclamar mais recursos ou alarmar a população.”

Este é o momento é de reclamar mais recursos e de alarmar a população perante a inação de quem dirige.

Ninguém deseja um confinamento. Estamos todos preocupados com a economia. No entanto, o número de cadeias de transmissão é de tal ordem que se torna impossível identificá-las e isolar atempadamente todos os novos infetados com os recursos que existem no terreno. E, por isso mesmo, temos de informar e de mobilizar a população para o cumprimento das medidas de confinamento. Se não o fizermos este irá arrastar-se no tempo e isso trará graves consequências tanto em número de mortes evitáveis como na economia.

Que ninguém venha dizer daqui a uns dias que não era possível prever.

Perspetiva-se um novo confinamento

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Múltiplas causas trouxeram-nos aqui:

Os comportamentos de risco que foram potenciados entre outras coisas pelo encanto governamental com a vacinação, a má comunicação de risco em saúde que passou a inexistente, os convívios do Natal e da passagem de ano. A vaga de frio cujo impacto na pandemia não foi devidamente acautelado. A nova variante N501Y que por cá tem sido ignorada e que será responsável pelo aumento significativo do número de contágios, à semelhança do que aconteceu no Reino Unido e na África do Sul.

Confesso-me zangado e indignado com a atuação governamental.

Tem sido feita uma gestão meramente política e não científica da pandemia. Incapaz de melhorar com o erro. A comunicação de risco em saúde à população foi sempre residual e de má qualidade. Dos milhares de lares ilegais ainda nada foi dito ou feito. Esperava uma iniciativa, um plano por parte da segurança social para esta situação crítica. Incompreensível e inaceitável que se ignore o termo ‘ilegal’ num Estado de direito democrático. Possivelmente apenas mais um lapso. Narrativas e semântica. Inação e incompetência.

Inaceitável que o Estado que detém o monopólio de distribuição de vacinas não discuta abertamente quais os critérios de vacinação. Em termos estratégicos a prioridade da vacinação deveria ser aos grupos de maior risco de doença grave (os mais velhos) para aliviar imediatamente o SNS. Os dos lares (legais e ilegais). A arrogância dos decisores políticos a quem foram dadas todas as condições de consenso alargado para atuação competente na gestão na pandemia é vergonhosa.

Dito isto, os próximos dias serão difíceis. Muito difíceis. Estamos todos fartos. Fartos desta pandemia e fartos desta sensação de incompetência – dos políticos, dos cidadãos, dos outros… dos irresponsáveis.

A hostilidade em relação à pandemia, no momento em que nos encontramos, alimenta-se de sentimentos de medo e de raiva face à incerteza. Não apenas da incerteza que enfrentamos sobre o risco de sermos infetados, mas também da necessidade de sermos vacinados sem saber quando, e das consequências sociais e económicas das medidas que serão agora implementadas.

Temos de reduzir a hostilidade, mas não podemos confundir essa necessidade com ausência de contraditório, de discussão aberta sobre os caminhos possíveis e de análise crítica que permita identificar os erros e as soluções. Não podemos silenciar-nos com a ideia que seja pouco patriótico discutir qualidade de dados ou outro qualquer tema. Temos de ser exigentes com quem toma decisões em prol de toda a população.

Temos de reduzir o discurso de ódio. As divisões entre portugueses de bem e ‘os outros’ alimenta o ódio. Temos de assumir que no que toca à pandemia todos somos irresponsáveis. Todos arriscamos mais do que devíamos a dada altura. A infeção é em grande medida decorrente do acaso e pode atingir qualquer um de nós.

Todos somos irresponsáveis.

Os outros começam por ser os pedófilos e os assassinos, depois passam a ser os ladrões e os corruptos, e rapidamente passam a ser os comunistas, os socialistas, os sociais-democratas, os liberais, os defensores dos animais, os que não defendem o mesmo que os ‘portugueses de bem’. E mesmo esses serão rapidamente afastados sempre que não se alinharem com quem manda. As consequências da política feita a partir do discurso de ódio são bem conhecidas na história da humanidade.

Temos de nos focar nas ideias e não nas pessoas. Não são as pessoas de bem versus os outros. São os problemas estruturais da sociedade que conduzem a falhas no sistema judicial. Precisamos de melhorar a justiça e a equidade. Precisamos de alavancar a economia e de criar oportunidades de trabalho e de rendimento digno para a população. Precisamos de discutir soluções e não pessoas. Não pode haver mais ‘Novos Bancos’. Tudo quanto represente um discurso contra pessoas ou grupos de pessoas deve ser imediatamente identificado, denunciado e não tolerado por se tratar de discurso de ódio.

Apelo a que o faças – discute ideias e não pessoas. Não te alheies dos verdadeiros debates que o teu país precisa. Quem adormece em democracia acorda em ditadura. Soe a alvorada.

Como sei que a Terra é redonda?

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Por: George Orwell
Tradução de Desidério Murcho

Num ou noutro lugar — penso que é no prefácio a Saint Joan — Bernard Shaw comenta que somos hoje mais crédulos e supersticiosos do que o éramos na Idade Média, e como exemplo da credulidade moderna cita a crença muito difundida de que a Terra é redonda. O homem médio, afirma Shaw, não consegue apresentar uma só razão para pensar que a Terra é redonda. Limita-se a engolir esta teoria por haver nela algo que é atraente para a mentalidade do século XX.

Ora, Shaw está a exagerar, mas o que afirma tem algo que se lhe diga, e vale a pena explorar a questão devido à luz que lança sobre o conhecimento moderno. Afinal por que acreditamos efectivamente que a Terra é redonda? Não estou a falar dos poucos milhares de astrónomos, geógrafos, e assim por diante, que poderiam apresentar provas oculares, ou que têm um conhecimento teórico da prova, mas do cidadão comum que lê os jornais, como eu ou você.

No que respeita à teoria da Terra Plana, penso que poderia refutá-la. Se ficarmos junto ao mar num dia com boa luz, consegue-se ver os mastros e chaminés de navios invisíveis que passam ao longo do horizonte. Este fenómeno só pode ser explicado supondo que a superfície da Terra é curva. Mas não se segue que a Terra é esférica. Imagine-se outra teoria, chamada teoria da Terra Oval, que afirma que a Terra tem a forma de um ovo. Que posso dizer contra ela?

Contra o homem da Terra Oval, a primeira carta que posso jogar é a analogia do Sol e da Lua. O homem da Terra Oval responde logo que não sei, pela minha própria observação, que esses corpos são esféricos. Só sei que são redondos, e podem perfeitamente ser discos planos. Não tenho resposta a isto. Além disso, continua ele, que razão tenho para pensar que a Terra tem de ter a mesma forma que o Sol e a Lua? A isto também não posso responder.

A minha segunda carta é a sombra da Terra: quando incide sobre a Lua, durante os eclipses, parece a sombra de um objecto redondo. Mas como sei, exige o homem da Terra Oval, que os eclipses da Lua são causados pela sombra da Terra? A resposta é que não sei, tendo antes tomado às cegas este pedaço de informação de artigos de jornal e opúsculos de ciência.

Derrotado nas trocas menores, jogo agora a minha rainha de trunfo: a opinião dos especialistas. O Astrónomo Real, que tem obrigação de saber, diz-me que a Terra é redonda. O homem da Terra Oval joga o seu rei em cima da minha rainha. Testei eu a afirmação do Astrónomo Real, e saberia sequer como o fazer? Aqui faço uso do meu ás. Sim, conheço um teste. Os astrónomos conseguem prognosticar eclipses, e isto sugere que as suas opiniões sobre o sistema solar são bastante sólidas. Tenho consequentemente justificação para aceitar o que dizem sobre a forma da Terra.

Se o homem da Terra Oval responder — o que penso ser verdade — que os antigos egípcios, que pensavam que o Sol anda à volta da Terra, sabiam também prever eclipses, lá se vai o meu ás. Só me resta uma carta: a navegação. As pessoas velejam à volta do mundo, e chegam aonde querem, fazendo cálculos que presumem que a Terra é esférica. Penso que isto acaba com o homem da Terra Oval, apesar de mesmo assim ele poder talvez ter um qualquer tipo de contra-ataque.

Como se vê, as minhas razões para pensar que a Terra é redonda são muito precárias. Contudo, trata-se de um pedaço excepcionalmente elementar de informação. Na maior parte das outras questões, eu teria apelado muito mais cedo ao especialista, e teria tido menos capacidade para testar as suas proclamações. E a maior parte do nosso conhecimento está neste nível. Não repousa em raciocínio ou experimentação, mas na autoridade. E como poderia ser de outro modo, quando a diversidade de conhecimento é tão vasto que o próprio especialista é um ignoramus mal se afasta da sua própria especialidade? As pessoas, na sua maior parte, se lhes pedissem para provar que a Terra é redonda, nem se dariam ao incómodo de apresentar os fraquíssimos argumentos que esbocei. Começariam por dizer que “toda a gente sabe” que a Terra é redonda, e se insistíssemos, ficariam zangadas. De certo modo Shaw tem razão. Esta é uma época crédula, e o fardo de conhecimento que agora temos de carregar é em parte responsável.

George Orwell – Publicação original Tribune (27 de Dezembro de 1946)

Não basta recomendar o uso de máscaras na comunidade

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A publicação dos resultados do único ensaio clínico aleatorizado, até ao momento, sobre o uso de máscaras na comunidade para prevenir o contágio por SARS-CoV-2 revela que não se encontrou um efeito estatisticamente significativo. É, portanto, inconclusivo. 

É sempre importante recordar que ausência de evidência de efeito não corresponde a evidência de ausência de efeito.

Uma explanação sobre as evidências que favorecem a recomendação do uso de máscaras na comunidade demonstra que o seu uso pode ser eficaz, como em contexto hospitalar, na redução do número de contágios por SARS-CoV-2. A investigação sobre infeções respiratórias sugere que o uso combinado de medidas preventivas será mais eficaz.

Contudo, os resultados do ensaio clínico aleatorizado dinamarques não podem deixar de nos fazer pensar que o efeito pode ser pequeno ou até na direção oposta ao desejado. Não basta recomendar o uso de máscaras na comunidade. É preciso que as pessoas as usem de forma adequada e não ignorem as outras medidas, como lavar as mãos regularmente e obrigatoriamente antes de comer.

Como recorda a Organização Mundial de Saúde na orientação sobre o uso de máscaras no contexto da COVID-19 de 5 de Junho de 2020:

“Quando as máscaras são recomendadas para o público em geral, o decisor deve:
• comunicar com clareza a finalidade do uso da máscara, onde, quando, como e que tipo de máscara deve ser utilizada. Explicar a vantagem e a desvantagem de usar uma máscara e comunicar claramente que isso faz parte de um pacote de medidas, conjuntamente com a higiene das mãos, distanciamento físico e outras medidas que são necessárias, todas elas, e que todas se reforçam umas às outras;
• informar/ensinar as pessoas quando e como devem usar as máscaras em segurança (ver as secções de gestão e manutenção das máscaras), i.e., colocá-las, usá-las, retirá-las, limpá-las e descartá-las;
• considerar a viabilidade da utilização, questões de abastecimento/acesso, aceitação social e psicológica (de usar e não usar diferentes tipos de máscaras em diferentes contextos);
• continuar a recolher dados e evidências científicas sobre a eficácia do uso de máscaras (incluindo diferentes tipos e marcas, assim como outras protecções da cara, como lenços) em contextos externos às unidades de saúde;
• avaliar o impacto (positivo, neutro ou negativo) do uso de máscaras pela população em geral (incluindo as ciências comportamentais e sociais).”

OMS. Orientação sobre o uso de máscaras no contexto da COVID-19, 5 de Junho de 2020

Medidas como a lavagem das mãos, o uso de máscaras e o distanciamento físico, para serem eficazes, requerem um conhecimento, compreensão e aplicação adequada por parte da população. Não basta criar manuais. Sem programas de educação e de orientação comportamental dirigidos a diferentes segmentos da população, enquadrados numa estratégia de comunicação de risco em saúde, dificilmente teremos os resultados de que precisamos. Restará apenas o confinamento compulsório.

De que serve obrigar o uso da Stayaway Covid?

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 1. Carateriza o risco de forma insuficiente

A App Stayaway Covid assinala a ocorrência passada de um episódio de proximidade a menos de 2 metros e durante cerca de 15 minutos de dois telemóveis através de conexão bluethooth.

Nada diz sobre se as pessoas estiveram sentadas numa esplanada de costas voltadas, se usavam ou não máscara, se estiveram em silêncio a assistir a um espetáculo lado a lado, ou se estiveram a beijar-se o tempo todo. Ou se um dos telemóveis estava algures numa mochila ou pousado numa mesa e as duas pessoas nunca se cruzaram sequer.

Informações importantes para caraterizar o risco de contágio e que apenas podem ser obtidas se existir a indicação sobre quem foi a pessoa infetada com quem houve suposta proximidade, informação que a App não tem como fornecer. O anonimato é assegurado e o risco de quebra de confidencialidade é realmente muito baixo. E, neste caso, isso é uma grande limitação.

Nada diz sobre contactos com pessoas infetadas que:

– não notificam, introduzindo o código (de que serviria obrigar à instalação da App e manter a notificação voluntária!);

– não usam a App (a obrigatoriedade em apenas alguns contextos é uma discriminação inexplicável);

– não tinham consigo o telemóvel no momento do contacto (não somos Cyborgs e os telemóveis ainda tendem a ficar pousados em muitos locais enquanto nos movemos longe deles);

– não foram testadas e contagiaram de forma assintomática (‘Fique longe da COVID num clique’ é o que se pode designar de publicidade enganosa).

O uso obrigatório e massivo traria consigo uma falsa sensação de segurança e um rápido descrédito no sistema de alerta de contágio por todas as insuficiências que apresenta.

Resta saber como seria gerido esse descrédito, silenciando a população? Cortando na liberdade de expressão? Ocultando a incapacidade de gerir o aumento de casos?

2. Orienta o uso de testes de forma indiscriminada

Recebendo a notificação de que houve um episódio de risco nada se sabe sobre esse episódio. Apenas que o telemóvel esteve, a dada altura, durante 15 minutos próximo de um telemóvel de uma pessoa infetada. Como é que esta informação orienta a gestão clínica do caso?

Citando o Luís Antunes: “Deixe-me fazer uma conta muito rápida. Hoje houve 2600 casos, se cada um destes portugueses tivesse a app instalada e durante os últimos 14 dias, por dia, tivesse contactado com 6 outros portugueses que tivessem app amanhã haveria 220 000 alertas de potencial infeção em todos os que tinham a app. Ora, eu questiono-me se a rede de saúde 24 está preparada para receber as chamadas e o que é que vamos fazer a esses portugueses…

O uso da App de forma massiva tem o potencial de gerar uma procura excessiva por testes, quando o esforço devia ser colocado numa gestão eficiente dos mesmos. Não temos como processar milhares de amostras diariamente de forma indiscriminada, mas podemos orientar de forma eficiente o seu uso através dos médicos de saúde pública. Tenham estes os recursos de que necessitam.

3. Aumenta a desconfiança e pânico na população

A ideia de que uma App pode ser imposta aos cidadãos e o seu uso fiscalizado pela polícia em nome da gestão de um problema que é de saúde pública num estado de direito democrático no ano de 2020 acende um rastilho de desconfiança na população face a quem foi democraticamente eleito para governar o país. Quem não entende isto anda muito desorientado na vida política.

Na incerteza da pandemia, o anúncio da possibilidade de esta ser gerida com recurso a métodos usados em sociedades autocráticas e repressivas despoleta desassossego.

Tal constatação apenas será positiva se a perturbação gerada impulsionar a liberdade de expressar pensamento contraditório e construtivo, que mobilize as comunidades na identificação das suas necessidades e na mobilização de esforços e de recursos para a resolução dos seus problemas.

Como na primeira vaga, não podemos ficar à espera que a orientação chegue quando quem tem o ónus de orientar continua desorientado, façamos a nossa parte – organizemo-nos

O impacto psicológico do coronavírus (parte II)

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Fechamos o mês de Fevereiro de 2020 com a incerteza sobre o impacto que o novo coronavírus teria na nossa sociedade à medida que este se aproximava. Tivemos de gerir o fluxo constante de informação que os media debitaram e de dar particular atenção, prestando cuidados, aos mais vulneráveis com distanciamento físico. Vivemos 45 dias de estado de emergência e, globalmente, a sociedade portuguesa suportou e cumpriu estoicamente o que lhe foi pedido.

No entanto, este esforço teve, e tem, custos psicológicos. O desgaste causado pela experiência de stress da pandemia será, na maioria dos casos, reparável, mas requer atenção e cuidados. Vários estudos que foram desenvolvidos neste período dão conta do que precisa de ser feito ao nível da saúde mental. Existem grupos que estão particularmente fragilizados. Além das pessoas que já estavam em situação de vulnerabilidade, acrescem as pessoas que pertencem aos grupos de risco para covid-19 (doentes crónicos e idosos), as que vivem com rendimentos precários e os profissionais de saúde.

Depois da pandemia, a sindemia

A pandemia veio agravar três problemas na saúde das populações: i) aumentou os casos de violência doméstica, pela implementação das medidas de contingência; ii) agravou a dificuldade no acesso a cuidados de saúde a doentes não covid-19, pela realocação de recursos escassos, com grande impacto negativo nas doenças não transmissíveis; e, consequentemente, iii) deixou grande parte da população num estado de exaustão emocional e de desgaste psicológico.

Daí que, actualmente, não temos apenas uma pandemia para gerir, temos uma sindemia, o que requer medidas muito mais abrangentes. Uma sindemia caracteriza-se por uma interacção de agravamento recíproco entre problemas de saúde e o contexto social e económico numa dada população. O problema de saúde (neste caso a pandemia de covid-19) agrava os problemas sociais e económicos e vice-versa numa espiral negativa.

Um olhar atento e comprometido com o bem-estar da população permite identificar um conjunto de medidas estruturais, que passam também pela protecção no trabalho e pela segurança social, cuja ausência condiciona o agravamento do impacto da pandemia na sociedade. Urgem respostas de combate à pobreza com Políticas de Trabalho e de Segurança Social que sejam coerentes e consistentes com o ano de 2020 em que vivemos e que façam uma actualização do que a década de 90 implementou.

Políticas que sejam transversais a toda a sociedade e que encerrem de vez a percepção de que existem trabalhadores com toda a protecção e trabalhadores sem protecção nenhuma. Ou, ainda, a ideia de que centenas de lares ilegais, de que as notícias dão conta, são algo que toda a gente sabe que existe e continuará a existir sem que o termo ‘ilegal’ faça lembrar que vivemos num Estado de Direito Democrático. É importante que se discuta o hidrogénio para o futuro estratégico do país, mas será incompreensível que não se discuta isto também.

Da adequação das medidas e das teorias da conspiração

A origem do vírus, e a forma como este se espalhou pelo mundo, permanece algo dúbia e, ainda que existam evidências que sugerem não se tratar de algo fabricado laboratorialmente, não existem ainda estudos que permitam descartar em absoluto o seu uso intencional como arma biológica. Estes ‘vazios’ são rapidamente preenchidos por teorias da conspiração na Internet alimentadas pela suspeição face a personalidades como Bill Gates que, tendo feito fortuna na informática, tem feito enormes investimentos nos últimos anos na área da saúde e da vacinação.

Assim, crescem movimentos que negam a perigosidade do vírus e que alegam que as medidas de saúde pública, como o uso de máscara comunitária, são uma tentativa de controlar e oprimir a população e de lhes impor uma vacina que lhes fará mais mal que bem.

O vírus é real e temos de lidar com a sua existência. Da adequação das medidas tomadas face à sua perigosidade só poderemos aferir muito mais tarde e será impossível saber como teria sido caso as medidas fossem outras, apenas comparar com o que outros países fizeram. Contudo, é essencial que se identifiquem erros e que estes sejam devidamente analisados para que daí se retire conhecimento a implementar nas próximas medidas. Esta é uma premissa do raciocínio clínico e, a esse nível, felizmente a abordagem a casos covid-19 é actualmente mais informada e eficaz do que era em Março de 2020, quando apareceram os primeiros casos em Portugal.

Sabemos que o uso das máscaras ajuda a diminuir os contágios e as vacinas são um dos grandes avanços de conhecimento científico da humanidade que têm permitido salvar vidas. Não vivemos numa sociedade que apenas assegura direitos e liberdades individuais, também requer de nós um conjunto de deveres e o de defender e promover a protecção da saúde é um deles – “todos têm direito à protecção da saúde e o dever de a defender e promover”, n.º 1 do art. 64.º da Constituição da República Portuguesa. Façamos a nossa parte.

É fundamental que não nos seja ocultada informação e que se permita um escrutínio independente das decisões tomadas tanto no plano político, como no plano técnico-científico. Num regime democrático é expectável que o governo governe e que a oposição se mantenha activa no contraditório, de forma construtiva. Uma pandemia não é uma guerra. Daí que seja positivo que, ao menos, saibamos agora quem são os especialistas que informam os decisores políticos. As analogias podem ser muito úteis em comunicação, mas também podem ser redutoras, enganadoras e limitadas.

Afirmar que estamos ‘em guerra com o vírus’ é bastante desadequado. As palavras moldam a forma como desenvolvemos a percepção da realidade que vivemos. Associadas às palavras estão significados, memórias e emoções que nos influenciam. Instala-se o desânimo e a apatia ou renovam-se forças e ergue-se a esperança. As palavras são importantes. A forma como as utilizamos também o é. Não é possível intimidar ou desencorajar um vírus. De que serve afirmar que estamos em guerra com ele?

Precisamos de alerta e prontidão, mas temos de diminuir a hostilidade e a desconfiança. Precisamos de filtrar a quantidade imensa de informação que circula, mas não podemos confundir isso com censura e falta de transparência. Precisamos de gerir a incerteza e o desconhecido, mas não devemos permitir que sobre assuntos relevantes se instale o silêncio – os ‘vazios’ serão rapidamente preenchidos. Uma pandemia não é uma guerra.

O futuro incerto

Entramos agora no mês de Outubro com a perspectiva da segunda vaga. É impossível determinar a dimensão dessa vaga, mas é estimável que o número de casos possa ser dois a três vezes superior com a chegada do Inverno.

A maioria dos casos na segunda vaga serão moderados e não requerem internamento, pelo que serão encaminhados para isolamento em casa. As famílias deverão preparar-se para acolher situações em que um membro da família está infectado e, consequentemente, toda a família tem de ficar em casa. E ainda situações em que um elemento da família, por contacto directo com alguém infectado, na escola ou no trabalho tem de ser testado e permanecer em casa por precaução. Esta dinâmica irá causar disrupção na vida das escolas, das empresas e das famílias. E, apesar de ainda ninguém nos ter dito isto, temos de nos preparar e adaptar. Quando não podemos mudar a direcção do vento, resta-nos reajustar as velas.

As limitações devidas à pandemia obrigam a menos deslocações, a menos consumo e a economia retrai-se. Muitas pessoas perderam o emprego/trabalho ou estão na perspectiva de o perder. O número de casos covid-19 aumenta com a chegada do Inverno e a sua gestão trará novos desafios aos serviços de saúde e à população. Há rumores de conflitos crescentes e de novas guerras frias e quentes a estalar pelo mundo. O futuro parece agora bastante incerto.

É normal sentir medo e ansiedade face a toda esta incerteza. Estranho seria não o sentir. As emoções podem apoderar-se de nós e é importante reconhecer que é expectável e normal que elas surjam. Temos é de as controlar e não deixar que sejam elas a controlar-nos. Procurar analisar e compreender o estado emocional que vivenciamos é o primeiro passo para as controlar.

As palavras que usamos também condicionam a forma como pensamos e sentimos algo. Não falemos de distanciamento social, falemos de distanciamento físico. Não pensemos em isolamento, pensemos em protecção. Não nos foquemos na crise, mas antes em oportunidades. Esta não é a altura para nos fecharmos e isolarmos. Temos de manter os contactos sociais e de falar abertamente com quem nos é próximo sobre o que nos preocupa e sobre como podemos lidar com isso.

Esta não será a altura para desistir e ceder à incerteza ou ao medo. Não será a altura de alinhar rapidamente com discursos radicalizados e de conspirações que, de vez em quando, ‘dizem umas coisas acertadas’. Até um relógio parado está certo duas vezes ao dia e nem por isso serve. Importa não esquecer que coragem não é sobre a ausência do medo, antes sobre a capacidade de fazer o que precisa de ser feito apesar do medo. Não podemos controlar o futuro, mas podemos controlar a forma como lidamos com ele.

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