Serei bastante claro: quando digo ‘luto’ não me refiro ao substantivo, estou mesmo a conjugar o verbo. Digo que luto pela ciência e digo-o porque é necessário lutar pela ciência em Portugal. É estranho que seja assim, mas é.

  • Portugal nunca foi um país de ciência.

Sim, Coimbra é das Universidades mais antigas da Europa. Remonta ao século XIII, nascida em Lisboa, é transferida para Coimbra no século XVI. Nesse mesmo período abre portas a Universidade de Évora. Entretanto, na vizinha Espanha abrem portas, durante o século XVI, catorze novas Universidades. Catorze!

Estima-se que no início do século XX, quando abrem portas as Universidades do Porto e de Lisboa, estudavam cerca de 1500 estudantes na Universidade de Coimbra e apenas 25% da população ativa sabia ler e escrever. A Finlândia tem desde o século XIX 95% da população ativa a saber ler e escrever. Portugal atingiria essa mesma marca de desenvolvimento social em 2008. Sim, já no século XXI.

Na década de 90, do século XX, Mariano Gago, enquanto Ministro da Ciência e da Tecnologia, dinamizou um conjunto de políticas que permitiram a Portugal desenvolver recursos humanos e centros de investigação de qualidade a nível Europeu em várias áreas cientificas e tecnológicas. ‘Massificou-se’ o Ensino Superior. Tive o enorme privilégio de ser bolseiro de Doutoramento da FCT graças a essas políticas visionárias.

Contudo, nos últimos vinte anos a falta de visão e de estratégia política para a ciência em Portugal degenerou numa FCT Kafkiana. Portugal não tem uma agência de financiamento de ciência e tecnologia capaz de fornecer o que o país necessita:  consistência, transparência, seriedade.

  • Vivemos numa era de Manifestos

Em Maio de 2018 vários cientistas, reconhecidos em diversas áreas, elaboraram um Manifesto apontando falhas e solicitando soluções urgentes para a ciência portuguesa. O inesperado aconteceu: o cidadão cientista Manuel Heitor também subscreveu o manifesto. A expectativa foi grande. A desilusão não tardou, o ministro ‘centeno’ Manuel Heitor nada fez que dignifique o conteúdo subscrito.

A precariedade laboral na sociedade portuguesa enquistou de tal forma que se tornou a norma. A não existência de vinculo laboral caracteriza agora as relações laborais e em ciência, tal como nas empresas, isto tem custos associados. Já ninguém se preocupa em apagar a luz quando sai. O que parte, partido fica. Os melhores emigram a cada dia que passa. A mediocridade está a tomar conta das instituições. Um outro Manifesto apela às instituições que mudem de rumo em direção ao mérito científico e pedagógico.

Em Janeiro de 2017, Foi publicado na Nature um Manifesto que defende a melhoria da fiabilidade e da eficiência do processo de investigação científica. Problemas de ausência de transparência no financiamento ou de meritocracia não serão um exclusivo português, no entanto, não é disso que este texto fala. O sistema de produção e de disseminação científica está em crise e discutem-se atualmente formas de o melhorar metodologicamente. Este artigo discute ciência, não a política de financiamento ou de contratação.

Cá, por terras lusas, a crise parece ser ontologicamente distinta. O meio académico ainda não foi capaz de integrar os seus goliardos, que aparecem tardiamente no século XXI sob a designação de bolseiros. Ironicamente, os diretores e reitores são agora empossados ao som de Gaudeamus igitur!

  • Luto pela ciência

Não me surpreende que hoje um grupo de investigadores tenha virado as costas ao primeiro ministro durante o seu discurso. Nos últimos vinte anos políticos, reitores e diretores têm, ativa ou inativamente, contribuído para o estado negligenciado e deteriorado da ciência em Portugal. Estoicamente alguns, poucos, centros de investigação produzem ciência em Portugal. Orgulho-me de estar integrado num deles.

Escolhi fazer ciência. Como eu, muitos outros. Amanhã e depois faremos o que escolhemos e sabemos fazer, por isso, lutaremos pela ciência em Portugal. Não se enganem, não estamos de Luto, estamos em Luta.