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Múltiplas causas trouxeram-nos aqui:

Os comportamentos de risco que foram potenciados entre outras coisas pelo encanto governamental com a vacinação, a má comunicação de risco em saúde que passou a inexistente, os convívios do Natal e da passagem de ano. A vaga de frio cujo impacto na pandemia não foi devidamente acautelado. A nova variante N501Y que por cá tem sido ignorada e que será responsável pelo aumento significativo do número de contágios, à semelhança do que aconteceu no Reino Unido e na África do Sul.

Confesso-me zangado e indignado com a atuação governamental.

Tem sido feita uma gestão meramente política e não científica da pandemia. Incapaz de melhorar com o erro. A comunicação de risco em saúde à população foi sempre residual e de má qualidade. Dos milhares de lares ilegais ainda nada foi dito ou feito. Esperava uma iniciativa, um plano por parte da segurança social para esta situação crítica. Incompreensível e inaceitável que se ignore o termo ‘ilegal’ num Estado de direito democrático. Possivelmente apenas mais um lapso. Narrativas e semântica. Inação e incompetência.

Inaceitável que o Estado que detém o monopólio de distribuição de vacinas não discuta abertamente quais os critérios de vacinação. Em termos estratégicos a prioridade da vacinação deveria ser aos grupos de maior risco de doença grave (os mais velhos) para aliviar imediatamente o SNS. Os dos lares (legais e ilegais). A arrogância dos decisores políticos a quem foram dadas todas as condições de consenso alargado para atuação competente na gestão na pandemia é vergonhosa.

Dito isto, os próximos dias serão difíceis. Muito difíceis. Estamos todos fartos. Fartos desta pandemia e fartos desta sensação de incompetência – dos políticos, dos cidadãos, dos outros… dos irresponsáveis.

A hostilidade em relação à pandemia, no momento em que nos encontramos, alimenta-se de sentimentos de medo e de raiva face à incerteza. Não apenas da incerteza que enfrentamos sobre o risco de sermos infetados, mas também da necessidade de sermos vacinados sem saber quando, e das consequências sociais e económicas das medidas que serão agora implementadas.

Temos de reduzir a hostilidade, mas não podemos confundir essa necessidade com ausência de contraditório, de discussão aberta sobre os caminhos possíveis e de análise crítica que permita identificar os erros e as soluções. Não podemos silenciar-nos com a ideia que seja pouco patriótico discutir qualidade de dados ou outro qualquer tema. Temos de ser exigentes com quem toma decisões em prol de toda a população.

Temos de reduzir o discurso de ódio. As divisões entre portugueses de bem e ‘os outros’ alimenta o ódio. Temos de assumir que no que toca à pandemia todos somos irresponsáveis. Todos arriscamos mais do que devíamos a dada altura. A infeção é em grande medida decorrente do acaso e pode atingir qualquer um de nós.

Todos somos irresponsáveis.

Os outros começam por ser os pedófilos e os assassinos, depois passam a ser os ladrões e os corruptos, e rapidamente passam a ser os comunistas, os socialistas, os sociais-democratas, os liberais, os defensores dos animais, os que não defendem o mesmo que os ‘portugueses de bem’. E mesmo esses serão rapidamente afastados sempre que não se alinharem com quem manda. As consequências da política feita a partir do discurso de ódio são bem conhecidas na história da humanidade.

Temos de nos focar nas ideias e não nas pessoas. Não são as pessoas de bem versus os outros. São os problemas estruturais da sociedade que conduzem a falhas no sistema judicial. Precisamos de melhorar a justiça e a equidade. Precisamos de alavancar a economia e de criar oportunidades de trabalho e de rendimento digno para a população. Precisamos de discutir soluções e não pessoas. Não pode haver mais ‘Novos Bancos’. Tudo quanto represente um discurso contra pessoas ou grupos de pessoas deve ser imediatamente identificado, denunciado e não tolerado por se tratar de discurso de ódio.

Apelo a que o faças – discute ideias e não pessoas. Não te alheies dos verdadeiros debates que o teu país precisa. Quem adormece em democracia acorda em ditadura. Soe a alvorada.