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O ‘dataism‘ é considerado por vários pensadores contemporâneos o novo sagrado do século XXI. Yuval Noah Harari faz uma das melhores reflexões sobre o tema no seu livro Homo Deus – a brief history of tomorrow. Se no passado o sagrado servia para nos ajudar a tomar decisões e a prever o futuro (e.g. o Oráculo de Delphos, os textos sagrados, os sacerdotes da matriz judaico-cristã) no século XXI esse papel parece estar reservado aos analistas de dados. Particularmente aos analistas de grandes quantidades de dados – o Big Data. O que a Google fez em 2008 com o Google Flu Trends impulsionou o entusiasmo e, diria até, o dogmatismo em torno do Big Data. No entanto, não deixa de ser curioso notar que vários exemplos mostram que no mundo empresarial o Big Data precisa do Small Data. A Lego é um exemplo a que já fiz referência – aqui. Outro caso paradigmático é a Nokia que caiu a pique de líder de vendas de telemóveis (apesar de na sua génese vender pneus) porque apoiou toda a sua estratégia de vendas apenas no Big Data e ignorou o Thick Data. Nas empresas, como na investigação científica, o antagonismo quantitativo versus qualitativo precisa de ser ultrapassado. Os números por si só não significam nada se não forem enquadrados num contexto que lhes atribua significado. Pense nisso – 22 é muito ou pouco? De facto, 22 não é nada. Os algarismos 22 são símbolos linguisticos que tanto podem significar o indicativo telefónico da zona do Porto, o número de anos que passei na Escola a estudar, o número de jogadores em campo numa partida de futebol ou a idade que gostaria de voltar a ter. Se olharmos apenas para os números percebemos como é possível correlacionar tudo com praticamente tudo e desenvolver algoritmos preditivos com base nisso. Sem análise do contexto, do significado e de uma história que enquadre esses números a possibilidade de erro é imensa porque apesar de termos a resposta assente numa grande quantidade de dados com muito poder estatístico, simplesmente, não acertamos na pergunta.