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George Orwell, no livro 1984, ilustra como a “Novilíngua” pode restringir o pensamento crítico mediante a eliminação sistemática de palavras. Atualmente, estas práticas parecem estar a ser adaptadas às democracias, muitas vezes mascaradas por discursos sobre inclusão, justiça ou segurança nacional.
No caso da administração Trump, esta tendência manifestou-se claramente na “sugestão” de evitar usar certos termos em documentos oficiais, particularmente no Centro de Controlo de Doenças (CDC), em 2017. O uso das palavras: “vulnerable, diversity, entitlement” foi desaconselhado. Esta decisão foi justificada como uma forma de “aumentar a aceitação política de propostas orçamentais”. Em 2017, o que começou, alegadamente, como “sugestão de algumas palavras a evitar” alastrou rapidamente a outros termos: “vulnerable,” “entitlement,” “diversity,” “transgender,” “fetus,” “evidence-based” and “science-based.”. Em 2025, a história repete-se e as reações de indignação também.
A simplificação e dicotomização artificial da linguagem, característica de Trump, “nós vs. eles“, aprofunda as divisões sociais e exacerba o conflito. A retórica anti-imigração, com termos como “invasores” para descrever requerentes de asilo, alimenta a xenofobia institucional. O uso recorrente de termos como “fake news” e “inimigos do povo” normaliza a violência política. A “sugestão” de não uso de termos científicos mina a credibilidade de agências públicas. Ao eliminar “mudança climática” dos comunicados da EPA (Agência de Proteção Ambiental), a administração americana comprometeu a sua capacidade de resposta a crises ambientais.
Os condicionamentos lexicais da era Trump revelam a vulnerabilidade das democracias contemporâneas à manipulação semântica. A deslegitimação sistemática de instituições como os media (“inimigos do povo“) e o sistema judicial cria um ecossistema de desconfiança propício ao autoritarismo.
Nada disto é inocente.
A administração Trump aproveitou-se das plataformas digitais para amplificar narrativas específicas enquanto silenciava vozes dissidentes. O facto do próprio Trump ter sido banido do Twitter e do Facebook em 2021, após o ataque ao Capitólio, ilustra o duplo papel das redes sociais: são armas de desinformação e simultaneamente campos de batalha pelo controlo narrativo.
Os efeitos psicológicos das restrições linguísticas vão além das meras barreiras de comunicação. Quando as pessoas são forçadas a autocensurar-se constantemente e a navegar por restrições linguísticas complexas, isso pode gerar ansiedade e redução de expressão, ou seja, silenciamento por receio de punição, ou de ofender, o que diminui a comunicação genuína. Os moderados saem de cena.
Este impacto psicológico serve os interesses da tirania ao promover uma população que hesita em expressar pensamentos livremente e que está constantemente preocupada com potenciais transgressões linguísticas. O resultado é uma forma de censura autoimposta que pode ser politicamente mais eficaz do que os controlos externos.
A manipulação linguística pelos extremos políticos tem minado a confiança nas instituições democráticas e gerado descrédito dos meios de comunicação e da ciência. A criação de “bolhas” ideológicas tem sido reforçada por algoritmos nas redes sociais. Parece haver uma dificuldade crescente em estabelecer diálogo entre grupos com visões divergentes.
Acontece que proibir palavras não torna o mundo um lugar melhor. Ainda que a regulação e a proibição de discursos perigosos (e.g. incitamento ao ódio e à violência) sejam necessárias, importa evitar a tentação autoritária de controlar a linguagem de forma ampla. Palavras que ofendem devem ser discutidas e enfrentadas com palavras que contra-ofendem. Isto requer educação e não cancelamento – nisto reside a liberdade. A solução talvez passe mais pelo fortalecimento das instituições educativas e mediáticas, para que promovam a capacidade de navegar criticamente no ecossistema linguístico moderno.
Importa não esquecer que a vitalidade democrática mede-se pela pluralidade de vozes e não pela imposição de uniformidade lexical. A linguagem, enquanto campo de batalha democrático, deve ser preservada como espaço de liberdade, diversidade e debate aberto. Por vezes, à boleia de boas intenções, o resultado é o aumento da polarização e das tensões sociais.
Sobre o triste debate parlamentar do possível condicionamento e sancionamento dos apartes ofensivos de alguns deputados, revejo-me mais na posição de Aguiar-Branco. Importa tornar mais transparente e acessível ao eleitorado, tanto no conteúdo como na forma, o que move esses deputados. Mostrem-se como realmente são. O eleitorado perceberá assim melhor se se revê ou não nisso, ao invés de fazer dessa bancada uma vítima do silenciamento opressivo – nisso reside a democracia.
O risco que alguns (des)construtivistas radicais (que acreditam que nada existe para além da “palavra”) correm é o de um dia poderem ser atropelados por um carro real numa estrada real enquanto o tentam desconstruir, proibindo o uso dos termos: viatura, carro e automóvel. Por outras palavras, proibir palavras que poderão ofender não elimina pensamentos e ações que realmente ofendem e que, de forma duradoura e profunda, ferem. Veja-se o que está a acontecer agora – 2025 – no mundo. A realidade social, e a sua transformação, é um pouco mais complexa do que isso. No entanto, nisto vejo apenas risco de raciocínio sobre a realidade desajustado.
Vejo, por outro lado, um risco muito maior. Os riscos que os projetos Trumpistas, Bolsonaristas, Venturistas e outros centrados na ilusão do Homem Salvador da Pátria, Ungido por Deus, mas secretamente aconselhado por Steve Bannon, representam para a paz e a segurança no mundo atual são tremendos. O eleitorado, assustado e zangado com o mundo atual, que lhes dá crescente poder, é habilmente presenteado com narrativas de desinformação e medo. De tal forma, o seu julgamento é intencionalmente toldado, com fortes cargas emocionais, que dificilmente (este eleitorado) percebe as incoerências nos planos racional, pragmático e de moral cristã que está a alimentar. Penso que o esvaziar do pulmão destes projetos políticos ameaçadores passa pela gentil, mas firme, clarificação dessas incoerências.
Exponho assim, publicamente, algumas ideias de um pensamento que será percebido por alguns como “crimidea“, no sentido orwelliano do termo. Perante o risco de ser identificado e punido pela “Polícia do Pensamento“, receio mais o silêncio face aos riscos anteriormente enunciados. O que fica por saber é se alguém terá sequer paciência para ler tudo isto na era do TikTok digital!
Li até ao fim, Pedro! Como habitualmente, sinto que escreves sobre temas importantes e necessários.
Qualquer censura é perigosa e aquilo que vemos acontecer no mundo (e de forma aberta e grosseira nos EUA) precisa de ser dito e discutido, de todas as maneiras possíveis.
Continuação de bom trabalho,
Abraço,
Susana Almeida
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Caro Pedro, concordo com maioritariamente tudo o que este texto representa. No entanto, respeitosamente, os primeiros parágrafos não são factos mas sim suposições. Tanto em 2017 como em 2025 não há provas concretas desta “censura”. Em 2017 o report foi feito por um analista anónimo e publicado no Washington Post e depois ecoado por outros media. As justificações orçamentais são sólidas e vários oficiais disseram que nunca ninguém as baniu, mas sim aconselharam que não fossem usadas por motivos de financiamento, assim como vários investigadores em Portugal fazem diariamente, adaptando-se às várias revistas e cedendo a todas as exigências que os revisores fazem para que tudo seja publicado (isto não o torna correto, mas demonizar Trump por tudo e por nada também não o é). Relativamente às palavras que não aparecem em nenhum documento, como por exemplo a “evidence-based”, foi completamente desmentido por toda a administração Trump e, mesmo sabendo que isto pouco importa, mais nenhum jornal provou a verdade deste report, por isso não o podemos assumir como facto. Relativamente a 2025, estas palavras estão “flagged” e não “banned” e, tendo em conta os exemplos de despesa da USAID, por bom motivo. A USAID financiou uma organização possivelmente ligada ao laboratório de Wuhan, por isso rever bolsas e financiamentos com o termo “covid-19” parece-me senso comum. Relativamente à palavra “trans”, tendo em conta os últimos reports científicos (como a Cass Review) e os falhanços dos bloqueadores de puberdade em crianças, também me parece senso comum. Relativamente à palavra “mulher”, assumir que isso fará com que investigação sobre direitos das mulheres diminua é um salto enorme que espero também não ver tornar-se real. Tudo me parece alinhado com a estratégia de eliminação de desperdício em DEI e, como em todo o globo, quem financia é que escolhe o que vai financiar, assim como o Biden exigia as palavras “climate justice” em várias bolsas para serem financiadas (assumir que “climate justice” é obviamente correto para a humanidade é um viés enorme também. Vários estudos apontam para combater as alterações climáticas com “human flourishing” e não com “climate justice”). Daí o liberalismo estar a ganhar força: Sem o estado a financiar investigação, nenhum destes casos existiria. Simplista demais para um comentário, claro, talvez utópico até, mas digno de reflexão.
Abraço.
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