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A publicação dos resultados do único ensaio clínico aleatorizado, até ao momento, sobre o uso de máscaras na comunidade para prevenir o contágio por SARS-CoV-2 revela que não se encontrou um efeito estatisticamente significativo. É, portanto, inconclusivo. 

É sempre importante recordar que ausência de evidência de efeito não corresponde a evidência de ausência de efeito.

Uma explanação sobre as evidências que favorecem a recomendação do uso de máscaras na comunidade demonstra que o seu uso pode ser eficaz, como em contexto hospitalar, na redução do número de contágios por SARS-CoV-2. A investigação sobre infeções respiratórias sugere que o uso combinado de medidas preventivas será mais eficaz.

Contudo, os resultados do ensaio clínico aleatorizado dinamarques não podem deixar de nos fazer pensar que o efeito pode ser pequeno ou até na direção oposta ao desejado. Não basta recomendar o uso de máscaras na comunidade. É preciso que as pessoas as usem de forma adequada e não ignorem as outras medidas, como lavar as mãos regularmente e obrigatoriamente antes de comer.

Como recorda a Organização Mundial de Saúde na orientação sobre o uso de máscaras no contexto da COVID-19 de 5 de Junho de 2020:

“Quando as máscaras são recomendadas para o público em geral, o decisor deve:
• comunicar com clareza a finalidade do uso da máscara, onde, quando, como e que tipo de máscara deve ser utilizada. Explicar a vantagem e a desvantagem de usar uma máscara e comunicar claramente que isso faz parte de um pacote de medidas, conjuntamente com a higiene das mãos, distanciamento físico e outras medidas que são necessárias, todas elas, e que todas se reforçam umas às outras;
• informar/ensinar as pessoas quando e como devem usar as máscaras em segurança (ver as secções de gestão e manutenção das máscaras), i.e., colocá-las, usá-las, retirá-las, limpá-las e descartá-las;
• considerar a viabilidade da utilização, questões de abastecimento/acesso, aceitação social e psicológica (de usar e não usar diferentes tipos de máscaras em diferentes contextos);
• continuar a recolher dados e evidências científicas sobre a eficácia do uso de máscaras (incluindo diferentes tipos e marcas, assim como outras protecções da cara, como lenços) em contextos externos às unidades de saúde;
• avaliar o impacto (positivo, neutro ou negativo) do uso de máscaras pela população em geral (incluindo as ciências comportamentais e sociais).”

OMS. Orientação sobre o uso de máscaras no contexto da COVID-19, 5 de Junho de 2020

Medidas como a lavagem das mãos, o uso de máscaras e o distanciamento físico, para serem eficazes, requerem um conhecimento, compreensão e aplicação adequada por parte da população. Não basta criar manuais. Sem programas de educação e de orientação comportamental dirigidos a diferentes segmentos da população, enquadrados numa estratégia de comunicação de risco em saúde, dificilmente teremos os resultados de que precisamos. Restará apenas o confinamento compulsório.