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Agregação, Democracia, Descentralização, Diversidade de Opinião, Francis Galton, Independência, Sabedoria das Multidões, Statistics
No ano de 1906, numa feira de gado em Plymouth, Inglaterra, um grupo de pessoas foi desafiado a adivinhar o peso de um boi. Parece uma tarefa simples, mas o resultado foi surpreendente. Entre os participantes, havia desde especialistas em gado até curiosos sem qualquer conhecimento sobre o assunto. Os críticos do sistema democrático diriam que a melhor aposta seria perguntar a um grupo reduzido de especialistas em gado ao invés de perguntar a toda a gente, certo?
Errado!
Francis Galton, conhecido pelo seu ceticismo em relação à capacidade intelectual das massas, analisou as 787 estimativas sobre o peso do boi abatido, e descobriu que a média das respostas (1197 libras) diferia apenas uma libra do peso real (1198 libras). Este resultado, publicado na revista Nature (Galton, 1907. Vox Populi. Nature.), contradiz as suas próprias convicções elitistas, revelando que a agregação de opiniões diversificadas, incluindo as de leigos, pode produzir precisão estatística.
Este episódio, que poderia passar por uma simples curiosidade, acabou por revolucionar a forma como entendemos a tomada de decisões e a previsão de eventos. E tudo graças a Francis Galton que, ao tentar criticar o sistema democrático, descobriu o poder da “Sabedoria das Multidões”.
O que é a Sabedoria das Multidões?
A ideia por trás da Sabedoria das Multidões é simples: quando um grande número de pessoas tenta adivinhar algo, a média das suas estimativas tende a ser mais precisa do que a maioria das previsões individuais. Isto acontece porque os erros cometidos por uns tendem a ser compensados pelos acertos de outros. No caso do boi, algumas pessoas subestimaram o peso, enquanto outras exageraram. No entanto, quando todas as estimativas foram somadas e divididas pelo número de participantes, o resultado foi notavelmente próximo da realidade.
Limitações e Armadilhas
Atenção, a sabedoria das multidões não é infalível. Se as pessoas forem influenciadas por informações erradas ou se houver um viés comum, a média pode ser enganadora. Um exemplo clássico é o efeito manada, onde as pessoas seguem cegamente as opiniões dos outros, em vez de formarem as suas próprias. Além disso, a Sabedoria das Multidões funciona melhor quando há diversidade de opiniões. Se todos os participantes tiverem a mesma formação ou pensarem de forma semelhante, os erros podem acumular-se em vez de se cancelarem. A Sabedoria das Multidões só funciona quando há diversidade de opiniões e independência entre os participantes, ou seja, as pessoas não podem estar todas a seguir o mesmo raciocínio ou a influenciar-se mutuamente. Se isso acontecer, os erros podem ampliar-se em vez de se cancelarem.
Durante muito tempo a Sabedoria das Multidões passou dispercebida. Gustave Le Bon, em A Psicologia das Multidões (1895), argumentava que os grupos perdem a racionalidade individual, agindo por impulsos emocionais. Exemplos históricos, como histerias coletivas e bolhas financeiras, pareciam corroborar essa ideia. Autores como Charles Mackay (Extraordinary Popular Delusions and the Madness of Crowds) reforçam o estereótipo da “multidão estúpida”.
Se queres conhecer mais histórias sobre o poder da Sabedoria das Multidões, recomendo que leias The Wisdom of Crowds, 2004 de James Surowiecki.

James Surowiecki, identifica quatro critérios essenciais para a Sabedoria das Multidões ocorrer:
- Diversidade de opinião: Participantes devem trazer informações e perspectivas distintas.
- Independência: As decisões individuais não podem ser excessivamente influenciadas por outros.
- Descentralização: O conhecimento é distribuído, não concentrado em uma única autoridade.
- Mecanismo de agregação: Um método para consolidar opiniões individuais em uma decisão coletiva.
A ausência de qualquer desses elementos, como ocorre em grupos sujeitos a lavagem cerebral ou em mercados manipulados, compromete a eficácia da inteligência coletiva.
Surowiecki analisa a democracia representativa e os mercados financeiros como mecanismos institucionalizados de agregação de preferências. Enquanto a democracia traduz preferências políticas através de eleições, os mercados sintetizam informações dispersas sobre valor e risco através de preços. Ambos, no entanto, são vulneráveis a distorções, como a influência de lobbies ou a manipulação de informações, que exigem salvaguardas para preservar a sua integridade.
A Sabedoria das Multidões não é uma panaceia – requer estruturas que protejam a diversidade, garantam a independência e evitem a tirania da maioria. No entanto, quando essas condições são atendidas, grupos podem resolver problemas de complexidade intratável para indivíduos isolados.
A história do boi de Plymouth mostra-nos que, por vezes, a melhor maneira de resolver um problema é perguntar a muitas pessoas diferentes. A sabedoria das multidões não é magia, mas sim o resultado de uma combinação de diversidade, independência, descentralização e agregação. Galton descobriu que, afinal, há mérito no sistema democrático e a estatística revela-o.
