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A história da estatística, no âmbito da investigação médica, está repleta de momentos fascinantes que demonstram o poder da mente humana sobre o corpo. Dois fenómenos particularmente interessantes neste contexto são o efeito placebo e o efeito nocebo – duas faces da mesma moeda, como: as expectativas podem influenciar o estado de saúde, particularmente os resultados de tratamentos médicos. Existem vários mitos sobre estes efeitos, particularmente no que concerne a sua magnitude e às falsas impressões sobre as atribuições aos mesmos, como: melhoria espontânea, flutuação/variação dos sintomas, regressão à média, tratamento adicional, vieses e outras justificações. Sobre os mitos do efeito placebo e do efeito nocebo, escreverei noutro artigo.

O “Tractor Perkins” e o Nascimento do Ensaio Clínico Controlado

Um dos marcos mais importantes nesta história ocorreu em 1796, quando o médico americano Elisha Perkins patenteou um dispositivo (fraudulento) chamado “Tractor Perkins“. Este aparelho, composto por duas simples varetas de metal, supostamente eliminava o “fluido elétrico nocivo” responsável pelo sofrimento dos pacientes.

O médico John Haygarth, intrigado com os relatos de eficácia deste dispositivo, decidiu investigar cientificamente.

Conduziu então um dos primeiros estudos controlados na história da medicina, comparando o Tractor Perkins original com uma réplica feita de madeira. Surpreendentemente, Haygarth descobriu que ambos os dispositivos – o metálico e o de madeira – produziam ligeiros efeitos benéficos semelhantes nos pacientes. Este estudo foi fundamental para demonstrar a importância do efeito placebo e a necessidade de grupos de controlo em estudos médicos.

A revolução dos Ensaios Clínicos com Ocultação Dupla

Na década de 1970 a crença dominante era que as úlceras gástricas eram causadas pelo excesso de ácido no estômago, e um dos primeiros medicamentos desenvolvidos para reduzi-lo foi a cimetidina, um bloqueador de histamina.

Quando a cimetidina foi lançada, os ensaios clínicos mostraram uma taxa de cura impressionante de cerca de 80% – um número surpreendente. No entanto, os estatísticos perceberam algo curioso: nos mesmos ensaios, o grupo placebo também apresentava uma taxa de cura de cerca de 60%. Isso indicava que uma parte significativa da melhoria dos pacientes parecia não ser causada diretamente pelo medicamento, mas pelo efeito placebo!

Mais tarde, quando novos medicamentos foram introduzidos para tratar úlceras, houve relatos de que a cimetidina poderia ter efeitos colaterais mais fortes do que o esperado, como dores de cabeça e fadiga. No entanto, ao analisar os dados estatísticos, percebeu-se que esses mesmos efeitos também eram relatados no grupo placebo (controlo) dos estudos. Ou seja, muitas pessoas estavam a sofrer apenas porque esperavam sentir efeitos colaterais – o efeito nocebo!

Curiosamente, a descoberta do efeito placebo nas úlceras gástricas abriu caminho para novos estudos, que mais tarde revelaram que a maioria das úlceras não era causada apenas pelo ácido estomacal, mas por uma bactéria chamada Helicobacter pylori.

Esse caso ajudou a estabelecer o papel essencial dos ensaios clínicos com dupla ocultação, onde nem “investigador” nem “participante” sabem se estão a receber o medicamento real ou o placebo. Também contribuiu para o pressuposto de que qualquer tratamento novo precisa ser significativamente melhor do que um placebo para ser considerado eficaz.

O Vírus de “Morangos com Açúcar” e a Epidemia da Televisão

Em 2006, em Portugal, um episódio televisivo de Morangos com Açúcar mostrava os seus personagens a adoecerem com um vírus fictício. Pouco depois da transmissão televisiva, escolas de todo o país começaram a reportar surtos de sintomas semelhantes aos da série: tonturas, dificuldades respiratórias e erupções cutâneas.

Cerca de 300 estudantes foram afetados e algumas escolas chegaram a ser evacuadas. No entanto, quando as autoridades de saúde investigaram, não encontraram qualquer agente viral. Dizia, na altura, Mário Almeida do INEM/Norte: “Não conheço nenhum agente que seja tão selectivo que só ataca crianças e em escolas”. A única explicação plausível era o efeito nocebo: os adolescentes, influenciados pelo que viram na televisão, começaram a manifestar sintomas psicossomáticos.

Este caso tornou-se um exemplo clássico de histeria coletiva causada pelos media e reforçou a importância da comunicação responsável sobre saúde pública.

Um Caso Particular de Nocebo – Tetrafobia

A tetrafobia é o medo ou aversão ao número 4. Em algumas culturas asiáticas, como na China, Japão e Coreia, o número 4 é considerado azarado porque se pronuncia de forma semelhante à palavra “morte”. Esta superstição leva as pessoas a evitar o número 4 em várias situações. Embora a tetrafobia seja principalmente uma superstição cultural, é sabido que pode ter impactos reais na saúde devido ao efeito nocebo. Um estudo com dados de 25 anos revelou um aumento significativo de ataques cardíacos entre chineses e japoneses no quarto dia do mês. Este fenómeno sugere que a ansiedade e o stress associados ao número 4 podem ter efeitos mensuráveis na saúde das pessoas nestas culturas.

Este estudo sobre tetrafobia sugere que as crenças culturais podem manifestar-se como efeitos nocebo, influenciando não apenas comportamentos, mas também resultados fisiológicos. Este caso particular sublinha a importância de considerar factores culturais e psicológicos na saúde pública e na prática médica, especialmente em sociedades onde certas superstições possam estar profundamente enraizadas.